sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

À beira de um ataque de nervos 2

Após corrida desenfreada para chegar a horas ao consultório, duas horas depois permanecia sentada, impacientemente à espera. Se primeiramente abriu o livro com gosto, ao fim de algum tempo o teor do mesmo, aliado à falta de paciência, azedou-lhe a espera. O único momento mais rizível foi quando se deparou com o seguinte: "Pergunta: como fazer para não se perder tempo? Resposta: senti-lo em toda a sua extensão. Meios: passar os dias na sala de espera de um dentista, numa cadeira desconfortável; viver à nossa varanda as tardes de domingo; ouvir conferências numa língua que não se compreende; escolher os itinerários de caminho de ferro mais longos e emnos cómodos e viajar de pé, naturalmente; fazer bicha nas bilheteiras dos espectáculos e não tomar a sua vez, etc, etc."
Albert Camus, A Peste

À beira de um ataque de nervos 1

Não foi uma ideia particularmente boa levar Camus para a sala de espera de um consultório médico.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Ao JorgeC

Por isso sai, sai da minha vida. Vai, não quero sofrer, Sai que eu morro de Ciúmes, Ai, dessa [MÚSICA] da outra mulher. Por isso sai, sai da minha vida. Vai não te quero ver, Sai sem nenhum queixume, E leva [ a música] da outra mulher. Perfume de Mulher (adaptada), de Ágata

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

CUIDADO COM O CÃO!



-É MEIGO e morde apenas se não for com a pessoa;
-É COMPANHEIRO, só foge na altura do cio e reaparece já moribundo;
- É LIMPO se não avistar "porcarias";
- É OBEDIENTE se não houver por perto gatos ou carteiros;
- É ALTRUÍSTA: urina sempre para o próximo;
- É AMIGO do seu osso também;
- É COMPREENSIVO, mas não lhe puxem muito o pêlo...
...e quando gosta de alguém torna-se um "lambidor" descontrolado!
É o Chico.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Demências

Já não bastava Nick Cave, agora a santíssima trindade - até 26 de Maio no Tate Modern (low cost, pessoal, low cost).
(Rrose Selavy, fotografia de Man Ray)

"-Tem-se a impressão de que cada vez que é levado a tomar uma posição, você retira-lhe a importância pela ironia ou pelo sarcasmo.
- Sempre. Porque não acredito nela.
- Mas em que acredita?
- Em nada! A palavra «crença» é um erro também. É como a palavra «julgamento». São dados terríveis sobre os quais o mundo está baseado. Espero que, na Lua, não seja assim.
- Todavia acredita em si?
- Não.
- Nem isso?
- Não acredito na palavra «ser». O conceito ser é uma invenção humana.
- ama assim tanto as palavras?
- Ah! Sim, as palavras poéticas.
- Ser, é muito poético.
- Não, nem por isso. É um conceito essencial que, na realidade, não existe, no qual não creio, mas muita gente crê ferrenhamente. Não se pode ter a ideia de não acreditar nas palavras «eu sou», não é?"
Marcel Duchamp, Engenheiro do Tempo Perdido - Entrevistas com Pierre Cabanne

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Hoje dei uma para a caixa (do lixo)!


No fundo da sala estava uma bola de papel enorme. Automaticamente apanhei-a e, sem me lembrar que era a professora, fiz pontaria e... não é que acertei em cheio no caixote do lixo?! Ena, encestei!
Hoje fui uma espécie heroína para os meus alunos do nono ano.
Contudo, o tempo que estive na ribalta foi como um “sol de pouca dura”, mas enquanto durou soube-me muito bem!
(Agora percebo melhor o poder da Bola. Bolas! Onde andei eu este tempo todo?)

Desassossegos 3 - Crónica de uma gata (semi) sitiada

Caríssimos: Há muito que não vos presto contas de mim, mas o certo é que aguardei pacientemente que perguntásseis. Com o desenrolar dos tempos, passei por várias fases: primeiro, tédio, a aguardar as vossas solicitações. Depois, impacência, perante a vossa displicência em nem perguntar por mim. Finalmente, raiva. Odiei-vos, caros amigos, odiei-vos. A vós principalmente, Mr. Lekker, que ainda pensei que tivéssemos um relacionamento especial. A única coisa que sei é que nunca mais perguntou por mim nem por minhas dietas. Vigiei constantemente este pc, à espera de notícias. Nunca chegaram. Enfim, sou uma gata abandonada à sua sorte. O motivo por que os meus bigodes surgem novamente por cá é o seguinte: contar-vos as últimas do ranhoso, velho arqui-inimigo. É que, nos últimos tempos, a criatura revelou uma faceta surpreendente. Continua agressivo para comigo - que os rancores não lhe passam (nem a mim, nem a mim). Mas é um rancor mais desimportado. Com menos esperas e menos espuma no canto da boca. Com rosnares mais mansos. Tornou-se um estranho, o patifezinho. Quase simpático. Ignora-me, o bandido, como se eu fosse gata para ser ignorada (o recado também serve para vós). Até certo ponto, concedo que este quase abandono melhorou o meu dia-a-dia; já me atrevo a colocar as quatro patas no quintal e até, por vezes, a acompanhar orgulhosamente a apanha do correio - diverte-me provocar os idiotas de quatro patas que ladram (literalmente) à minha arrogante passagem. Na maior parte das vezes, o monstro dorme e não me dispensa meio minuto de atenção. Ergo a cauda e as orelhas e passeio-me olhando-o de soslaio, não vá o diabo (o próprio) tecê-las. A cena tem-se repetido invariavelmente e até é comentada nas redondezas. Primeiro, ignorei o desinteresse do velho iracundo. Pensei que se lhe passava a generosidade. Uma febre que rapidamente teria cura. Contudo, surpreendeu-me, o ignóbil. A gota de água deu-se quando percebi que a criatura ganhou ternura (confesso que até se me descaíram os bigodes - e admito que me acontece com alguma frequência), mas informava eu que o bicho feio ganhou ternura porque deu-lhe para ser Pai! Leram bem, caros ingratos (até fiz parágrafo para voz dar tempo a digerir a novidade). Pai! A criatura tomou a seu cargo dois ranhositos das redondezas que o seguem por todo o lado. E é vê-los, preguiçosamente a dormir debaixo do meu nariz - como quem diz, que em rigor dormem debaixo do carro da Woab. Amorosamente os três. Enconstados, deliciados com o sol, com ronronares suficientemente sonoros para despertar a atenção de quem circula. Inclusive apanhei os dois projectos de patifezinhos a afilar as unhas no corpanzil do velho doido, muito satisfeitos como se a criatura tivesse útero e os tivesse parido. Está tudo doido! Menos eu, está claro. PS - E vai sem fotografia, face à desconsideração de que tenho sido vítima.

sábado, 23 de fevereiro de 2008


A ânsia da escrita passara,
A intensidade das palavras esgotara-se.
Abdicara agora da memória,
Desse pedaço de lembranças expurgadas no tempo

Decidira que ao fechar os olhos não veria
Mais os seres de outrora
De ora em diante
Formalizara o contrato com a deusa

E ela - e outras - não mais lhe enviariam mensagens.
Já não era preciso.
She had learn her lesson:
Fo(r)-ever.

Foto de Rupak de Chowdhuri

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

"É muito perigoso ser-se feminista em Portugal."

Pode ler-se, a voz de Isabel Barreno sobre a morte de Madalena Barbosa, feminista exemplar. Qualquer dificuldade que mulheres como eu encontrem hoje ao hastear a bandeira do feminismo (e por cá imagine-se os sobrolhos), não será comparável com a coragem que mulheres como esta tiveram, ao erguê-la em tempos bem mais sombrios e escusos. Muito lhes devemos. Madalena Barbosa, obviamente, faz parte da Comissão Promotora do Congresso que se avizinha. Militou sempre por um País mais esclarecido no que diz respeito às questões sobre as Mulheres. A nossa homenagem.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Longe, a distância

Só, incessante, um som de flauta chora, Viúva, grácil, na escuridão tranquila - Perdida voz que de entre as mais se exila, - Festões de som dissimulando a hora. Na orgia, ao longe, que em clarões cintila E os lábios, branca, do carmim desflora ... Só, incessante, um som de flauta chora, Viúva, grácil, na escuridão tranquila. E a orquestra? E os beijos? Tudo a noite, fora, Cauta, detém. Só modulada trila A faluta débil ... Quem há-de remi-la? Quem sabe a dor que sem razão deplora? Só incessante, um som de flauta chora ... Camilo Pessanha, Ao longe os barcos de flores

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

"I Have a Dream"

Um dia, (quase) todos os meus alunos ficarão igualmente entusiasmados com um excerto de um diálogo platónico. Confissões (que não as de Agostinho de Hipona - que recuso atribuir-lhe o epíteto de santo): Digamos que a Alegoria da Caverna não teve a recepção desejada.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Vai daí...

"Sócrates - (...) Achas que os oradores falam sempre com vista ao maior bem, na preocupação constante de melhorar os cidadãos com os seus discursos, ou que o seu empenho se cifra em agradar ao povo, pospondo o interesse comum ao seu interesse particular e tratando os cidadãos como crianças, a quem tentam agradar a todo o custo, sem curar de saber se os tornam melhores ou piores com estes processos? Cálicles - A tua pergunta exige que se faça uma distinção: há oradores que falam tendo em vista o interesse público e outros que são, na verdade, como dizes. Sócrates - Admitamos que sim: se há, de facto, dois aspectos a considerar nesta questão, teremos uma eloquência política que não é mais que uma adulação e uma vergonha, e outra que é bela e vive empenhada em melhorar o mais possível as almas dos cidadãos, esforçando-se sempre por dizer o melhor, seja ou não agradável ao auditório. Mas tu nunca viste uma retórica deste segundo tipo."
Platão, Górgias, (502e -503a)

Cogitações avulsas de uma esquerdina

Recomendo vivamente que, em dias mais depressivos, se dediquem à leitura das vociferações de "boys" profissionais em relação a "tachos" e "competências" de outros. Ouvi algures que a melhor defesa é o ataque. Não devo ter sido a única, pois há quem se apresse a colocar em prática (como se de "ciência" se tratasse) esta pérola do senso comum.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Cooooooooooooonqueeeeest

The White Stripes - Conquest

Cada vez mais iguais

"Os animais são todos iguais, mas uns são mais iguais que outros." O Triunfo dos Porcos de George Orwell

Muito pertinente. Gostei

Everything in its right place disse... "... desde que fazes estes posts morreram mais crianças às mãos assassinas dos seus pais do que aos dentes caninos destes cães. Será que devemos privar todas as crianças dos seus pais?"

Lullaby de Domingo

(um post que remete também para coelhos)
Impõe-se, graças às últimas pessegadas. Assim, aqui ficam pêssegos de todas as cores e feitios (ainda que fora de época): ampla, ritmada e indecorosamente comentados.
Esta lullaby também é maliciosamente dedicada ao RPS, graças a este post que tanto nos agradou. Deixa chegar o Verão, RPS, deixa chegar o Verão...

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Afinal, apetece-me mudar...

(imagem roubada d´algures que já não me lembro)

... eis a minha imagem! (Fumo e tudo, ena! Estou surpreendida!)


Pior do que isto só mesmo os pêssegos

Chega esbaforida e diz-me: - Vou retirar o D. da tua aula de apoio, porque tu és demasiado boa pessoa e ele precisa de alguém com mais pulso! Ah, o outro motivo é porque tens mais alunos do que é permitido nessas aulas. Está bem? Apanhou-me desprevenida e porque, talvez, sou demasiado boa pessoa, respondi-lhe: - Ok. Mas lamento dizer-lhe que o D. nunca veio às minhas aulas! Não conheço o aluno. Depois de cair em mim, pensei: - Nunca tive problemas em ser boa pessoa; - Sempre consegui controlar os meus alunos; - Já fui tutora de currículos alternativos e nunca tive quaisquer problemas; - É o segundo ano que sou Directora de Turma de alunos problemáticos e, até agora, tenho conseguido desempenhar da melhor forma (apesar de sentir-me ultimamente sem grandes forças). Este género de pessoas desmoraliza-me, porque sempre achei reprovável e precipitada a atitude de alguém fazer julgamentos a nível do desempenho profissional tendo como referência o aspecto e a maneira de ser da outra pessoa. Opinar ou alvitrar é válido, mas agora julgar? É uma estupidez latente, latejante e rastejante. Obviamente que o meu método de ensinar não deve agradar a todos, pois, por norma, um óptimo professor é aquele que se impõe através do aspecto físico ou da sua maneira autoritária de agir. É importante saber obedecer e, acima de tudo, para mim, é importante que saibam pensar por que têm que o fazer. Quando não atingem esse requisito, pura e simplesmente, dou nota negativa.
Acredito que o ritmo de aprendizagem varia de pessoa para pessoa. Agora não consegue, mas amanhã conseguirá. É uma questão de tempo. Sou persistente no que respeita ao ensino. Tenho um aluno que era péssimo no ano passado, quer a nível do comportamento, quer a nível do aproveitamento e, actualmente, sempre que tem testes positivos (positivas baixas, mas positivas!) vem ao meu encontro de peito inchado e diz-me: - Ó Boss (sou novamente a sua professora/ directora), diga-me lá agora que eu não sou um génio? Gosto de ser boa pessoa e se isso impede de ser também boa professora, prefiro abdicar da minha profissão, porque eu apenas consigo melhorar enquanto ser humano e aquilo que faço (profissão) é apenas um suplemento. Mudar? NUNCA! A liberdade conquista-se e não se impõe. A liberdade ensina-se e não se incute. A liberdade compreende-se e não se decora. A liberdade quer-se ou não se quer.
E, por favor, não me venham com as estatísticas ou com os “pulsos fortes”, porque pior que isso só mesmo os pêssegos.