sábado, 12 de janeiro de 2008

Repugnâncias


Olha-as maliciosamente.
Nojo. Náusea.
Os olhos pequeninos a brilhar, perdidos naquele corpo de bisonte, de quem esmaga com uma mão os quereres de outrém. É enorme, a criatura. Pulula pesadamente pelo espaço, muito mais estreito perante a presença daquele corpo excessivo coberto pelas calças justas e a t'shirt estilosa típica de frequentador de ginásio manhoso.
Nitidamente à caça, a besta. E elas, que lhe conhecem a mão leve para o peso nos outros, observam-lhe, estupefactas, a destreza e displicência nas aproximações. Horrorosamente despreocupado, sem consciência que lhe pese.
Incrivelmente, outras mulheres sorriem, como se lhe desconhecessem a incapacidade para ser verdadeiramente gente, o hábito de se esconder perante a omnipotência do aspecto, do peso físico, da vantagem insuflada. São poucos os que lhe censuram a cobardia e manifestam o desprezo por estar ali, daquela maneira, nitidamente à caça da próxima descompressora para as frustrações de cérebro pequenino, minúsculo; inexistente até.

Cartoon de Gerald Delcamp

Declaração de interesses

Uma das (muitas) razões porque gosto tanto de visitar o sítio dele.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

A-s-s-e-x-u-a-d-a


Ora, desde quando uma feminista usa saltos ou deixa-se fotografar nua por um amante? Ainda por cima, por um amante?
Não senhora. Feminista que é feminista, como sabemos, não depila, não ama (elementos do sexo oposto, como é óbvio) e não despe.
As feministas querem-se informes. E assexuadas! Ouviram?

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Petrificação momentânea - O Medo

Da polémica.
O medo da polémica, da assunção de que estamos perante questões sérias para as quais ainda não encontramos respostas ou posicionamentos. Ainda sobre o fio da navalha, mesmo que este pareça minimamente confortável. Ou não.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Monólogo colectivo

(Benjamin Vautier)

Excede largamente o estádio pré-operatório.
Ao invés de conversarmos, discursamos. De ouvidos bem fechados.

Crença verdadeira justificada

Dizem-me que sou mulher de fraco pulso.

Pérolas a porcos

"Dentro de cada um de nós há um conformista e um totalitário, e não é preciso muito mais do que o uniforme certo para que ele venha à tona."
eerer
Philip Zimbardo

domingo, 6 de janeiro de 2008

"Quando a dor no peito me oprime, corre o ombro, o braço esquerdo, surge nas costas, tumifica a carótida e dá-lhe um calor que não gosto; quando a respiração se acelera em busca duma lufada que a renasça, o medo da morte afinal se escancara (medo-mor, tamanha injustiça, torpeza infinita), aperto a mão da Irene, a sua mão débil e branca. Quero acordá-la. E digo : «não me deixes morrer, não deixes...» Penso para comigo, repito para me convencer: «esta pequena mão, âncora de carne em vida, estas amarras suas veias artérias palpitantes, este peso dum corpo e este calor, não me deixarão partir ainda...» E aperto-lhe a mão com força, e acabo às vezes por adormecer assim, quase confiante, agarrado à sua vida. Ah, são as mulheres que nos prendem à terra, a velha terra-mãe, eu sei, eu sei ! São elas que nos salvam do silêncio implacável, do esquecimento definitivo, elas que nos transportam ao futuro, à imortalidade na espécie (nem teremos outra) pelo fruto bendito do seu ventre (eu sei, eu sei...)"
In Comunidade, Luiz Pacheco

Cogitações avulsas

Ah, estes upgrades! De (quase) morrer a rir, a quantidade de bloguistas que se levam a sério. Gosto especialmente das bloguistas que insistem em confundir posicionamentos feministas com idas à esteticista (já parece a confusão daquele meu aluno que julgava que a Estética que eu estudava lhe resolveria o problema do acne) e que recorrem sistematicamente à linguagem pejada de calão, se calhar porque a esteticista que frequentam também a ela recorre. E quando alguém lhes chega ao pêlo (que já não têm, pelo menos a olho nú), ofendem-se e ganham graça a triplicar com as vociferações sobre a inteligência de quem exerce o mesmo direito: escrever o que lhe dá na real gana (com ou sem penugem).

Já que estamos nessa...


Permitido apenas nos locais assinalados.

Lullaby de primeiro domingo do resto do (novo) ano

Emprestamos o ouvido a Sérgio. Advertência: Everything, não é aconselhável clicares no play.

sábado, 5 de janeiro de 2008

Once upon a time...

... houve uma área para fumadores no meu local de trabalho. Uma saleta manhosa com duas mesas redondas, cinzeiro ao meio e dois sofás a um canto. Um extractor de fumo decrépito e cortinas amarelas compunham o antro. Do outro lado, a sala mais ampla direccionada para os não fumadores. Também muito mais barulhenta e pouco suportável. As duas salas estavam separadas por uma estrutura envidraçada que permitia os olhares indiscretos de parte a parte.
Desde que regressamos ao trabalho, a sala maldita está diferente. O extractor escapuliou-se para alguma arrecadação bolorenta, os cinzeiros votados ao esquecimento na cozinha do bar. Mudou-se uma das mesas redondas para uma seriíssima mesa rectangular, nitidamente à espera de reuniões mais burocráticas. Enconstaram-se outras tantas à parede, individuais. À entrada, a risível inscrição: sala de trabalho.
Desde que se soube que esta sala estava condenada, que alguns dos frequentadores da outra margem manifestavam, de sorrizinho apertado, que a sala tinha os dias contados. Nestes primeiros dias, só se atrevem a lá entrar para mais uma vez manifestarem o quão felizes estão pela cessação da sua função primordial. Uns debochados, na verdade, que largam a piadola e desaparecem novamente para o outro lado, muito satisfeitos com o papel que acabaram de desempenhar. Sempre tive dificuldade em perceber: se o que incomoda é a partilha do fumo, então porquê tanta manifestação de satisfação mesquinha pela extinção do sítio que permitia, civilizadamente, a escolha?
Neste início de mês, fui das primeiras a frequentá-la, acho. Continua a ser a minha sala e obviamente não abdico do prazer de conseguir fugir ao burburinho ensurdecedor do outro lado. Os restantes permanecem no lado de lá, o lado que sempre foi "saudável" e continua por legendar. Que por lá fiquem e abençoados sejam. Pouco me importo que não se fume; desde que se mantenham na outra margem e deixem a minha em paz. Com legenda e tudo.

Fotografia de Henri Cartier-Bresson

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Preceitos apócrifos 2

Depois dos festejos do ano (novo), murmurou para quem não a quis ouvir : "Em verdade vos digo: é cada vez mais difícil alguém olhar para além da biqueira dos seus sapatos ou reconhecer outras vozes. Atravessamos o tempo do bicho-de-seda."

Trouxe-o (não resisti!)

O Meu Amante Dizem que o amor à primeira vista não existe. Até pode ser que não. Mas existe ao primeiro beijo!
Ia já alta a noite de S. João e eu tinha sido deixado sozinho em frente ao mar, de costas viradas para o Homem do Leme. Ele foi deixado ao meu lado. Tocámo-nos subtilmente diversas vezes, até que a ânsia de o beijar ultrapassasse o medo da exibição pública e da reprovação.
Foi há dez anos que o tornei meu amante. Durante todo este tempo têm-me dito que o devia deixar, que me faz mal, que fere o corpo de chagas irreparáveis. Ah! mas como me enche a alma de Graça!
Gosto de tocar no seu corpo com os meus dedos ligeiros, sentir o seu perfume entre o indicador e o médio, beijar o corpo quente e sentir o calor da sua cor!
Ah! o meu amante! Todos querem que o largue, que o deixe. Todos me querem privar da sua companhia. Insistem que ele só me faz mal. Uns invejam o prazer que sinto quando nos tocamos, quando nos pensamos e paramos para contemplar.
Contemplamo-nos. Outros deixam-se levar pelo preconceito. Agora olham para nós como se fossemos lixo - eu e o meu amante. Resta-nos apenas um lugar onde nos possamos sentar juntos nessa contemplação que nos prende e nos enche de prazer!

Talvez um buraco qualquer!

http://entredeusesediabos.blogspot.com/2008/01/o-meu-amante.html

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Podia ser uma das pérolas de Mr. Lekker, mas não é

"A barata é pura sedução. Cílios, cílios pestanejando que chamam."
Clarice Lispector, A Paixão Segundo G. H.

Também não será a maior comédia, a homilia do Patriarca*

Agora que já passou algum tempo e cumprimos os festejos e excessos típicos da época, teçamos também nós algumas considerações sobre a já célebre homilia de Natal do Cardeal Patriarca de Lisboa. Em rigor, a já célebre frase não será totalmente descabida. Apenas está incompleta; obviamente que para uma instituição como a Igreja, com uma história repleta de donativos, dízimos e indulgências, "as expressões de ateísmo, de todas as formas existênciais de negação ou esquecimento de Deus, continuam a ser o maior drama". O problema está neste tique secular e recorrente para generalizar à Humanidade as necessidades, dogmas e dramas da Ecclesia. Assim, compreende-se que será realmente dramático para a instituição o afastamento, o esquecimento ou a negação desse Deus que a tem alimentado. Dificilmente é mais que isso. *O termo Patriarca também tem a sua piada, se atendermos à noção de "chefe de família" que maioritariamente orientou/a o rumo dessa Igreja maioritariamente habitada pelas mulheres.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Move On

Últimos cartuchos.

Para Euridice - uma lullaby extraordinária

«Pedaços»

Às vezes acontece-nos estarmos tão concentrados no nosso espaço, que ele se torna demasiado pequeno para nós. E acabamos por não dar espaço a mais ninguém. E o “nós” torna-se vazio, porque é simplesmente “eu”. Acontece que o espaço que ocupamos não é apenas nosso, é de todos aqueles que connosco privam e devemos dar-lhe o devido espaço, a devida importância e a devida atenção, sem esquecer de dar tudo isso também a nós próprios.

Por vezes encontro-me demasiado concentrada em mim mesma, de um egoísmo que me chega a repugnar (quando me desligo de mim e reflicto sobre isto). Tento então fazer um balanço do meu espaço e só lá estou eu, eu em pedaços, porque sem os outros sinto-me incompleta, “completamente incompleta”. E às vezes é difícil recuperar os outros, porque eles já encontraram o seu próprio espaço e aí sentimo-nos verdadeiramente sozinhos. Há que reaprender tudo de novo.

Eu quero que o meu espaço cresça comigo. E dentro desse espaço que os outros cresçam comigo, os que eu amo e os que eu amo menos, mas que também são importantes, porque fazem lá todo o sentido. É essa aprendizagem que espero realizar este ano.

A primeira coisa que perguntei hoje foi: «O que queres que eu mude em mim, que verdadeiramente te incomoda?». E ele respondeu-me: «Quero que sejas menos egoísta».

Vou tentar, prometo que vou tentar.