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sábado, 16 de agosto de 2008

É de ontem atirar-se à água e desafiar as normas

Fotografia tirada deste site.

Para um ilhéu, o mar é dado adquirido. E em tanto mar, há sempre um azul preferencial, local de eleição para estender os braços e galgar cores e sal. O meu pedaço de mar (há mais de 20 anos) é conhecido como Doca do Cavacas. São reentrâncias onde o titã descansa nos braços rochosos da ilha, espumando furiosa ou gentilmente. Quando amoroso, são muitos os que se atrevem a desafiar a sua generosidade, rasgando o leito que oferece.
Na Doca do Cavacas aprendi não só a nadar, bem como a desafiar o bom senso, atirando-me de locais que hoje são impensáveis. É certo que era das mais cobardes, tímida desafiadora dos patamares mais modestos, outros havendo que desafiavam escarpas bem mais acentuadas. Os saltos e os gritos são ruídos de infância, que acompanhavam os cheiros das manhãs límpidas e das tardes soalheiras. Nadava afincadamente até ao limite das poças, com o mar revolto, engolida pelas águas, redemoinhando à velocidade maior que o pensamento. Debrucei-me em dias mais calmos e deixei que as ondas acariciassem o meu corpo extenuado, estendido na língua que limitava o início do mar bravio.
Todos os anos regresso à Doca do Cavacas, na iminência de me encontrar com a infância e adolescência, apesar de não reconhecer os rostos que tornam hoje o local seu. O meu pedaço de mar tornou-se menos íntimo, menos perigoso, mais previsível e muito mais aborrecido. Agora temos vigilantes que controlam-nos as braçadas. A língua é-nos interdita, à distância do assobiar insistente, seguido de gesto que intimida ao regresso obediente. Os saltos são proibidos por avisos colocados nos locais de memória, os mesmos onde fazíamos fila para nos atirarmos para um quase infinito.
Já não é meu este pedaço de mar.