sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Adeus

Este é o último post em que utilizo a grafia da Língua Portuguesa tal como sempre a conheci. Por defeito profissional, sou obrigada a adaptar-me ao novo acordo ortográfico. Não é só o corte no salário, ou a subida de IVA que me vai afectar no Novo Ano. A minha Língua também deixará de ser a minha.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Últimas Pérolas a Porcos do Ano (2010)

Qualquer semelhança com a nossa realidade, não é coincidência:

«Os nossos sentimentos morais foram na verdade corrompidos. Tornámo-nos insensíveis aos custos humanos de políticas sociais aparentemente racionais, especialmente quando nos asseguram que elas irão contribuir para a prosperidade geral e assim - implicitamente - para os nossos interesses separados. (...).
Hoje voltamos às atitudes dos nossos primeiros antepassados vitorianos. Mais uma vez, só acreditamos em incentivos, "esforço" e recompensa - juntamente com castigos pela desaquação. (...). Se os trabalhadores não estiverem desesperados, porque hão-de trabalhar? Se o Estado pagar para que as pessoas fiquem ociosas, que incentivo elas terão para procurar emprego remunerado? Regredimos ao mundo duro e frio da racionalidade económica do Iluminismo, expresso pela primeira vez, e melhor, em 1732 n'A Fábula das Abelhas, (...). Na opinião de Manderville, os trabalhadores "nada têm que os faça mexer além das suas carências, que é prudente aliviar, mas loucura remediar."»
Tony Judt, Um Tratado Sobre os Nossos Actuais Descontentamentos, Edições 70, pp. 36-39

O autor continua com a afirmação de que Tony Blair não o diria melhor. Sócrates também não, acrescento eu.



quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Dize aos filhos da Madeira que votem*


A partir de hoje, muitos/as madeirenses estão atormentados/as por um autêntico dilema que terá de ser resolvido até à próxima ida às urnas.Como muitos/as compraram a tese de que os madeirenses são efectivamente um povo superior, de repente são confrontados/as com uma escolha que se afigurará difícil:
Por um lado, há um madeirense na corrida às Presidenciais, o que significa que  um cidadão cujo BI atesta pertencer a este povo superior seria uma escolha natural para todo(a) o(a) madeirense saudável e bem regimentado/a (os/as judeus/judias andaram estes milénios todos muito enganadinhos/as com a história do povo escolhido - afinal havia outro). Por outro lado,  os/as fiéis seguidores/as da crença em Madeirenses, Jardim e PSD, constatam que se o candidato supracitado cumpre o primeiro requisito e tem uma actuação pública muito parecida com o segundo, na verdade anda distante do terceiro. Aliás, quanto ao terceiro, este tem um outro candidato que,desgraçadamente, é continental e, portanto, cubano. Como se vê, o dilema moral é enorme e julgo que provocará dolorosas insónias e consecutivas idas à igreja à procura de uma alumiação divina porque os povos superiormente alumiados geralmente são muito bem relacionados com o divino - ou pelo menos, com os que se dizem seus representantes directos (ai Teodoro, Teodoro, ai Carrilho, Carrilho).

*Adulteração de "Dize aos filhos de Israel que marchem." Livro do Êxodo.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Diz que é um País laico

Eles por lá
Leio num jornal que um professor, em Espanha, foi interrogado pela Polícia por ter falado de presunto, em uma das suas aulas. Um aluno e respectivos pais acusam-no de comportamento xenófobo e falta de respeito para com a sua religião (pelos vistos o profeta não tem especial apreço por carne de porco).


Nós por cá
Em contrapartida, na minha terra, chegamos à época de inferno. Eu, que vivo num Estado pretensamente laico, acordo agora todas as manhãs com uma cerimónia religiosa berrada aos meus ouvidos. Note-se bem: estou deitada, no meu quarto, noite escura, e acordo estremunhada com um virgem do parto, ó maria, seenhooora da conceiçããão. E a coisa persiste em nome do pai, do filho e do espírito santo. Mais à frente (e eu às voltas) o sermão do padre, que como todos os sermões de padres desta altura falam de luz, de candeias e velinhas a alumiar o caminho dos(as) pobres pecadores(as) - que somos todos(as) nós, principalmente os(as) que praguejam na cama porque a liberdade religiosa lhes invade o seu espaço privado - desde as 5.30 da matina, que a salvação quer-se bem cedo. 
Esta redenção é-me impingida todos os dias, uma tradicional salvação que acontece todos os Natais. A esta salvação não chega remir os(as) que cheios(as) de boa vontade (e outras coisas mais) preenchem os bancos da igreja a horas de se estar a dormir; esta salvação obriga também os(as) que estão em casa e que não querem nem precisam ser salvos(as) a fazer parte de tudo isto. Porque num Estado que se diz laico, as Câmaras ainda acham que podem privilegiar desta forma indecorosa uma confissão religiosa e permitir-lhe a propagação da boa nova mesmo para quem não quer ser evangelizado(a). Num Estado que se diz laico, eu não tenho opção de escolha e na época do natal ouço re-li-gio-sa-men-te a missa todos os dias, que é para aprender a não ter a mania que estou num País livre.

(pintura de Hieronymus Bosch)

O exame que (não) era e que se julga que passará a ser (e respectivas trapalhadas)

Acaba-se o primeiro período com a sensação de que tudo mudou. Saúda-se o regresso do exame nacional de Filosofia, já com um primeiro ensaio no próximo dia 22 de Fevereiro para quem ingressou este ano no 10.º ano de escolaridade, em que se realizará (a nível nacional) o teste intermédio à disciplina.
Tudo estaria bem, se não tivéssemos iniciado o ano lectivo sem a informação de que arrancariam este ano testes intermédios na disciplina e que apontam (mas não confirmam) para a possibilidade de exame no ano terminal da disciplina (11.º ano).
Tudo estaria bem se esta calendarização (22 de Fevereiro) não fosse tão perniciosa para quem começa agora o seu percurso pela disciplina. Um agendamento muito pouco cuidado face aos conteúdos contemplados implica um ritmo nas aulas que é muito pouco razoável. A primeira unidade teve que ser em muito sacrificada e é possível que este ritmo alucinante leve os(as) alunos(as) a adquirir alguns (mais) anticorpos à disciplina. 

Perante tudo isto, não é possível deixar de questionar o intento desta planificação trapalhona. Esperemos que quem elaborou (ou está a elaborar) o teste intermédio que aí vem tenha tido em conta o currículo da disciplina, e não a orientação de determinados manuais. Esperemos que todas estas andanças não sejam apenas para engendrar desculpas para acabar com a disciplina.
 Sabemos a possibilidade de ter gente a pensar pode ser incomodativo...

Sobre a saga dos exames de Filosofia, ver aqui, aqui e aqui.

(pintura de Rembrandt)



Boa Semana

domingo, 19 de dezembro de 2010

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Galardão Natalício: a solidariedade em todo o seu esplendor


As crianças andam doidas, completamente apaixonadas por essa figura que surge sempre por esta altura do ano, muito cor-de-rosa, bamboleante, cada vez mais Lolita, embaixadora da caridade natalícia. Minto; as crianças dividem-se, entre uma paixão assolapada pela Popota, essa hipopótama cada vez menos hipo e uma paixão mais comedida, mas ainda assim intensa, pela Leopoldina, uma avestruz pensada para fazer com que os/as portugueses/as enfiem a cabeça na areia. Ambas sérias candidatas a beneméritas, senão da humanidade, pelo menos de Portugal, apregoam as fabulosas doações do seu patrão para causas sociais. São assalariadas, as bichinhas, e trabalham intensamente por esta altura, numa exortação pungente aos esvaziamento dos bolsos dos/das portugueses/as. 
Este ano (não sei se acontecia também o ano passado) a instituição de solidariedade social que é a Sonae continua a sua demanda de fazer caridade com o dinheiro que é dos outros; e propõe, para além de todas as quinquilharias usuais, um telemóvel da Popota, pela módica quantia de 59 euros. As crianças deliram, os pais um bocadinho menos, mas a verdade é que estas coisas vendem e fazem com que as pessoas passem um Natal mais apaziguado, na ilusão de que fizeram a sua parte. Esquecem o mais importante: ano após ano, a Sonae apregoa uma solidariedade que não é a sua: paga o/a cliente para que, com toda a pompa e circunstância, se apresentem cheques caridosos a instituições, num festival de exibicionismo atroz. Todos sorriem, inclusive o consumidor, o único que nada ganha com tudo isto. A solidariedade não é para todos/as. E principalmente, só dá lucros a alguns.

domingo, 12 de dezembro de 2010

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

"A Calçada da Corticeira é o Calvário das Carquejeiras do Porto"


Outro testemunho de um observador - Hugo Rocha - do 'calvário' das carquejeiras publicado no
 Século Ilustrado, a 19 de Abril de 1947, retirado daqui.
Para eventuais interessad@s, pode ler-se, no Centro de Documentação Movimento Operário e Popular do Porto, no âmbito do projecto "Memórias do Porto: testemunhos do Porto laboral do séc. XX", o testemunho de Palmira de Sousa, que percorreu a Calçada desde os 10 anos de idade.


As Carquejeiras


Eram mulheres, umas fortes, outras nem por isso, que subiam e desciam de madrugada até à noite a Calçada da Corticeira (a rampa, cuja nunca ninguém subiu de automóvel ou de bicicleta, embora tivessem tentado, façanha que ficaria nos anais do burgo). As carquejeiras descarregavam molhos de 40, 50 ou mais quilos de carqueja (ou chamiça) dos barcos que a transportavam Douro abaixo.


Depois, com os molhos às costas, dobradas, subiam a calçada (210 metros, 22 por cento de inclinação) até às Fontainhas. Ali, descansavam pousando a carga no muro da Alameda, bebiam água num fontanário e lavavam os rostos - sujos do pó da chamiça, e escorrendo suor. E prosseguiam viagem até ao centro da cidade, às Antas, a Paranhos, à Boavista, aos sítios onde havia padarias de que a carqueja era acendalha para os fornos. Entre os anos 30 e 50 passaram centenas de mulheres pela Corticeira. Num ano, em 1940 e tal, chegou a haver noventa, todo o dia, em bicha e em ziguezague, para compensar a agrura da subida.

Falavam pouco e contaram pouco. Pouca gente, aliás, estava interessada em ler coisas tristes e, além disso, as histórias delas não tinham o 'charme', nem o sumo requinte dos dramas traduzidos do francês. Por tal motivo a tragédia das carquejeiras ficou por contar. Dos temps em que andávamos na praia do Borras a tomar banho, em frente à Corticeira, guardei a imagem daquele formigueiro, daquele funicular de mulheres ocultas sob o carrego da carqueja eriçado de hastes com o aspecto dos ouriços. Um formigueiro a que éramos indiferentes: o rio chamava-nos na aventura da travessia e os desgostos interessam pouco aos meninos. Mas, ainda assim, recordo os seus rostos quando as vi de perto, no alto da Corticeira (tão inclinada que nunca a palmilhei de alto a baixo). Rostos amargos....

Histórias poucas. Não eram comédias de costumes e arranhavam em demasia a boa consciência das pessoas. Ficaram, no entanto, alguns nomes: a Blandina, que aceitou dizer quanto ganhava e os carretos que fazia (dez diários, a 50 quilos, dão meia tonelada, multipliquem por doze meses, durante dez anos - e terão ideia do peso do calvário). A Ermelinda, que ficou assinalada por ter dado à luz em plena subida, e a Elisa, que ficou mais assinalada por ter morrido de repente, aos trinta anos, a meio da Calçada, debaixo do carrego. Pessoalmente não as esqueço e, quando vou à Corticeira ver os crepúsculos recortarem a Ponte, lembro-me delas. E aqui deixo a evocação. Serve de homenagem à dignidade, porque, se a dignidade tem um rosto, é, com certeza, o das carquejeiras.

Helder Pacheco, As Carquejeiras, 1988
Calçada da Corticeira, Helena Reis




terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Para ti, sabes porquê


"We should write as we dream; we should even try and write, we should all do it for ourselves (...)"

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Boa Semana


Não é só a banda sonora deste filme que é recomendável.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Pergunta da semana

Estava no google. Como é que está errado, se tirei do google?
(ao dizê-lo tinha um ar triunfante, uma espécie de Agora toma! E como é que te safas desta?)

Ainda não é o espírito de Natal*

Neste primeiro fim-de-semana de Dezembro, já a cheirar a Natal, apenas um desejo: que amanhã, na ida para a escola, quando sintonizar o rádio do carro na TSF, estejam a noticiar a morte das bilhardeiras:
Imagino uma história bem escabrosa, em que provocam a morte uma da outra apertando os infindos cordões de ouro que andam a vender por tudo o que é ourivesaria da Ilha**. 
Que as últimas palavras das criaturas sejam um curto pedido de desculpas pela falta de talento propagada em todos os intervalos dos noticiários. Que sejam breves, que farta de as ouvir ando eu.

* mas é a prenda ideal.

**Já agora, é um bocadinho idiota tanta ourivesaria julgar que estes senhores encaminharão clientes para a sua porta. 33 mil ourivesarias anunciam da mesma forma e esperam que alguém as distinga? Já para não referir a coerência destes parodiantes: uma no cravo outra na ferradura, não é?


Lullaby de Domingo


Banda sonora para um fim-de-semana de tempestades: lá fora e na luta contra a vontade de nada fazer apesar da pilha de fichas para corrigir.

sábado, 4 de dezembro de 2010

O Inverno do nosso Contentamento*

Há dias que o céu não nos deixa em paz, num lamento constante, ritmado pela lentidão ou por vezes (felizmente só por vezes) violentamente zangado. Não há grande diferença entre o dia e a noite, a não ser no que diz respeito ao conforto de sentir-lhe a zanga lá fora, longe do nosso quarto.
Não percebo este céu por cima de nós; há dois meses e meio que entro sistematicamente em salas abafadas, apinhadas de adolescentes que transpiram tanto ou mais do que eu.
Não nos chega frio, apenas a água que escorre dos nossos corpos acalorados, o esforço de pensar com os pingos de suor a caírem o mais discretamente possível (acreditamos nós). As gargantas secas e os poros a trabalhar freneticamente, a reclamar o espaço do outro que está mesmo ali, quase colado, com o bafo quente a queimar-nos as orelhas.
As salas de aula são lugares terríveis, em dias como os que temos tido. E por vezes, a tristeza do céu rouba-nos o espaço lá fora, nos intervalos, quando poderíamos respirar mais livremente por escassos minutos. Uma tristeza quente, sempre quente, sem esperança.
Há dias que chove e finalmente começa a ser uma chuva que anuncia o frio. Pelo menos já se respira outra vez.

*Título inspirado num título de Steinbeck.