domingo, 28 de fevereiro de 2010

Lullaby de Domingo - Na Ilha da gente de (a)braços

 Water is my eye
Most faithful mirror


Se na tragédia se encontra conforto, esse está certamente nas gentes que povoam por estes dias a cidade. Um Teatro enlameado, um Museu desfeito e dezenas de braços a expulsar a água e lama que insiste em parecer multiplicar-se por entre as pás e vassouras que a fustigam. Gente nova (muito nova) que tomou a cidade como sua e que contraria a expressão oficial centrada no Eu e a transforma no Nós vamos reconstruir o que foi destruido. Há inúmeros rostos enlameados, botas de água de todas as formas e feitios e braços cansados que provam que a cidade não é de um ou de poucos/as; que a reconstrução é tarefa ansiada por todos/as, que os desalojados/as são responsabilidade de todos/as, que os mortos irremediavelmente mortos são de todos/as.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Sobre a Capa da Visão - uma (outra) perspectiva

A insónia está inquietada no coração da sua igualdade formal pelo Outro, que desnucleia tudo quanto, nela, se banha em repouso, em presença, em sono - tudo quanto se identifica. A insónia é o dilaceramento deste repouso no idêntico."
Emanuel Lévinas, Deus, a Morte e o Tempo

 
Vietname, 1972,  Fotografia de Nick Ut

Corre no facebook um grupo de apelo ao boicote à Visão desta semana, fundamentalmente  chocado com a fotografia duríssima que a ilustra. 
O apelo ao boicote deixou-me, num primeiro momento, perplexa. A imagem é dura? Certamente. Mas não sendo uma fotomontagem, não sendo possível identificar a vítima, não compreendo que ferida de morte à Região é essa que tem indignado, ao momento,  já 1500 membros.  De repente, o fotojornalismo passou a ser apodado de necrófago porque o flash aconteceu aqui mesmo, ao virar da esquina. 

 Sudão, fotografia de Kevin Carter, Prémio Pulitzer em 1994 

Há anos que visionamos, chocamo-nos e sentimo-nos mais humanos com fotografias pungentes vindas de outros sítios menos afortunados: em relação a Eles, dizemos  que é necessário saber da tragédia, enquanto que quando nos toca a Nós evocamos o pudor e a indignação face ao mesmo. critério. O direito à informação só é admissível quando nos glorifica ou então quando nos permite sentir uma piedade confortável em relação a outras aldeias/cidades/países. Acima de tudo, não permitamos confusões: eles não são nossos. O pudor só bate à porta quando o cadáver somos nós. Aí, levantamos as mãos aos céus e gritamos por decoro.


Leipzig, 1945, Robert Capa

Confesso que ainda que o discurso oficial aponte para a necessidade de minimizar os efeitos da tragédia que nos assolou no último fim de semana, apanhou-me de surpresa que muitos/as adoptassem avidamente o apelo. Que se note que não considero que o discurso do coitadinho deva prevalecer ou que não se deva acautelar os interesses económicos; contudo, também é manifestamente exagerado julgarmos que em função de uma tão propalada "Madeira nova" é necessário assobiar para o lado em relação ao que de facto se passou: é preciso haver espaço também para o luto e não apenas varrê-lo juntamente com a lama para debaixo da(s) ribeira(s). 


No que me diz respeito, prefiro uma Ilha dotada de equilíbrio: consciente quanto ao que se passou, esperançosa em relação ao que está por vir.
E não, não vou boicotar a Visão, até porque as reportagens que esta encerra em nada são pouco dignificantes para as pessoas (ao invés desse conceito abstracto e confortável de "povo madeirense") que viveram a tragédia .

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

O Trigo e o Joio - O Caso Jerónimo Martins vs Grupo Sá

A diferença de comportamento da família Jerónimo de Martins em relação ao Grupo Sá é abismal. A primeira doa um milhão de euros face à tragédia na Ilha. No que diz respeito aos segundos - o Grupo Sá -  as medidas implementadas face à catástrofe passam são o aumento da água em cerca de 30 por cento nos garrafões de 5 litros. Não terei quaisquer dúvidas na escolha da superfície onde efectuar as minhas parcas compras.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Ora espeta aqui o teu corninho que eu sou homem, pá!

A defender bem o cavalo nem o metias na arena, ó corajoso de meia tigela.
(agora imagine a chateação do touro com um idiota armado a esperto a espetá-lo com ferros. E já agora, revisão do conceito de coragem que não tem propriamente que ver com tipos atrasados mentais fraquinhos do discernimento* armados em heróis numa arena - a cavalo e com espetos na mão).

*Com a devida vénia à Ana Gomes, autora desta magnífica expressão.

Vídeo visionado pela primeira vez nas moscas do costume.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Ao Cuidado da Palmira Silva

 

Sim , O Jornal da Madeira fica ali numa rua que vai dar, mais ou menos, ao Mercado dos Lavradores.

A Água Tomou o Lugar de Tudo (Tolentino Mendonça)


(José Agostinho Baptista)

Lentamente a cidade acorda. Os/as caminhantes com ar sombrio apressam-se pelas ruas sobreviventes. 
Aqui onde estou, a tragédia passou quase ao lado e os estabelecimentos abrem portas (a medo). O som que sai de uma tipografia  a funcionar transmite-me estranho conforto.

*Obrigada Dirim.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Lullaby de Domingo

Miss Scout Niblett: note-se que a menina lançou novo álbum com o título 
The Calcination Of Scout Niblett


Bom Dia.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Lasciate ogne speranza, voi ch'intrate.*

Estou aterrada. O Sancho e o Funes são agora amigos no Facebook.

*Na Divina comédia, mais concretamente na porta do Inferno.

Contributos Para Um Novo Acordo Ortográfico

Estes posts sobre um possível (novo) acordo ortográfico podem ser verdadeiramente tromatizantes para quem os redige.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Requiem (Chrome)


"So now you’re in the middle of someone terrible and you’re carrying a tiny crucible."

"Todos os dias 18 mulheres, 2 crianças e 3 idosos são vítimas de violência."

You said “I want you, I don’t want another, I want a girl who knows how to suffer.”

"A denúncia de situações de violência doméstica junto da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) aumentou em 2009, sobretudo as de violações e abusos sexuais."

"Every raw boy want relief."

Os maus tratos conjugais representam 90,3% dos crimes registados e que vitimaram mulheres na maioria, mas, também, idosos e crianças, (...).

"You want a girl who’s pale and bled, you want a girl who’s easily led."

"O meu marido sempre me bateu, desde o namoro. "

"Come in, copy, she doesn’t read you, she fed the hand that bit her, she doesn’t need you. "

"Há um dia em que a gente não aguenta mais e decide mudar de vida, sair, ter liberdade para ser feliz. Não foi fácil, tive de sair para uma cidade que não conhecia, ter um emprego que não era o meu (trabalho numa pastelaria); e agora já tenho uma casinha que é arrendada (...). A única coisa que lamento é não ter as coisas resolvidas no tribunal."  

"I’m done with the dark boys, through with the dark boys, done with the dark boys, 
I swear you’ll be the last one."

As vítimas de violência doméstica são mulheres, têm entre 35 e 45 anos, a mesma idade dos agressores, que são homens, em regra os seus companheiros. Existe igualmente uma grande percentagem de envolvidos entre os 25 e 35 anos. E outra semelhança são os níveis de habilitações, o curso superior ou o 9.º ano.

"It’s more than you can hide, more than you can manage. "

Muitas das situações já existiam, só que não eram reveladas. O que é notório é que as pessoas têm mais informação sobre os seus direitos. Temos vindo a constatar esse maior conhecimento quando provavelmente outros países terão feito este percurso mais cedo 

"I’m done with the dark boys, through with the dark boys, done with the dark boys, 
I swear you’ll be the last one."

Toda a informação aqui.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Façam o favor de não perder


Porque todos/as nós temos que ficar a conhecer o poder terrífico do Dim Mak.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

De amor e outros demónios*

Este post, uma conversa em viagem entre Funchal e Lx e a aula de quinta-feira passada em que um dos meus alunos anunciou que gays só pelo penhasco abaixo (bom, não utilizou o termo penhasco, mas percebi-lhe a ideia) inspiram o que eventualmente se segue (pode ser um único post ou mais, conforme o tempo e a disposição): de como a orientação sexual em nada interfere com a criatividade, talento de cada um/a, de como a humanidade de cada um /a de nós não passa por quem e como amamos. E eu não quereria ter que passar (tal como o meu companheiro de viagem o afirmou em relação a Da Vinci, a Platão e outros) sem estas pessoas e o seu talento porque simplesmente outros consideram ter algo a dizer sobre quem ama quem.


(sim, o vídeo é o que me enviaste)

*Título a lembrar um outro do Gabriel Garcia Marquez, que atribuí indevidamente a Isabel Allende(e adulterei sem querer, traída indecentemente pela minha má memória).

Contributos Para Um Novo Acordo Ortográfico


Queremos o hífen da segunda pessoa do singular do verbo haver reposto, midiatamente.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Pour toi, amie

de Marc Chagall (1887 - 1985)
Bem sabes, minha querida amiga, o quão eu gosto deste pintor... e quando um quadro dele é posto neste nosso compartimento é porque alguém que me é muito querido anda muito feliz.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

"a envenenar-se de poesia e prosa"

Eu não creio em ninguém nem em mim acredito a minha alma há muito perdeu a sua força por isso já não a tenho

Vendia-a barato a um cigano que por aqui passou bateu à porta dentes de ouro a luzir falas mansas desceram abaixo das carnes ao fundo do osso e arrancaram o último suspiro de fé

Não não acredito em nada ou coisa alguma tudo é vazio e vago para se perder na cascata dos sentidos não preciso de alma basta-me a ideia duma cama

Mas não acreditar que nada existe nem no meu nome que é representação e palavra de Deus na terra não significa que não sinta este delírio dum homem perdido a envenenar-se de poesia e prosa

de EMANUEL BENTO

(As mal-assadas e o licor tim-tam-tum foram os meus excessos durante estes dias, não estivesse eu na Madeira. Do Carnaval não consigo gostar. Deste poema: gosto muito.)

Contributos Para Um Novo Acordo Ortográfico


Condições exprimentais são sempre bem vindas (antes da aplicação do mesmo).

The Weight of the World

Os meus alunos (não é engano, as  alunas invariavelmente contestam as posições  dos colegas)  estão indignados com a nova campanha sobre a utilização do preservativo. Consideram decorrer directamente do direito ao casamento civil para pessoas do mesmo sexo, consideram que é uma pouca vergonha e que não nos podemos esquecer que há crianças a ver aquilo. Quando questionei o facto de ainda não lhes ter ouvido indignação quanto a cenas de sexo heterossexual na tv, responderam que isso era normal e saudável.
E pronto, é isto.

"gostar de ti"

Eu podia chamar-te pátria minha dar-te o mais lindo nome português podia dar-te um nome de rainha que este amor é de Pedro por Inês. Mas não há forma não há verso não há leito para este fogo amor para este rio. Como dizer um coração fora do peito? Meu amor transbordou. E eu sem navio. Gostar de ti é um poema que não digo que não há taça amor para este vinho não há guitarra nem cantar de amigo não há flor não há flor de verde pinho. Não há barco nem trigo não há trevo não há palavras para dizer esta canção. Gostar de ti é um poema que não escrevo. Que há um rio sem leito. E eu sem coração. MANUEL ALEGRE Excelentes escolhas, sr. Funes. Muito obrigada.

Boa Semana

domingo, 14 de fevereiro de 2010

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Contributos Para Um Novo Acordo Ortográfico


Introespeção (des)controlada.

Soneto da Separação

De repente do riso fez-se o pranto Silencioso e branco como a bruma E das bocas unidas fez-se a espuma E das mãos espalmadas fez-se o espanto De repente da calma fez-se o vento Que dos olhos desfez a última chama E da paixão fez-se o pressentimento E do momento imóvel fez-se o drama De repente não mais que de repente Fez-se de triste o que se fez amante E de sozinho o que se fez contente Fez-se do amigo próximo, distante Fez-se da vida uma aventura errante De repente, não mais que de repente de Vinícius de Moraes

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Por falar em polvo...

Relembremos o "Imperador" da Língua Portuguesa - Padre António Vieira

Mas já que estamos nas covas do mar, antes que saiamos delas, temos lá o irmão polvo, contra o qual têm suas queixas, e grandes, não menos que S. Basílio e Santo Ambrósio. O polvo com aquele seu capelo na cabeça, parece um monge; com aqueles seus raios estendidos, parece uma estrela; com aquele não ter osso nem espinha, parece a mesma brandura, a mesma mansidão. E debaixo desta aparência tão modesta, ou desta hipocrisia tão santa, testemunham constantemente os dois grandes Doutores da Igreja latina e grega, que o dito polvo é o maior traidor do mar. Consiste esta traição do polvo primeiramente em se vestir ou pintar das mesmas cores de todas aquelas cores a que está pegado. As cores, que no camaleão são gala, no polvo são malícia; as figuras, que em Proteu são fábula, no polvo são verdade e artifício. Se está nos limos, faz-se verde; se está na areia, faz-se branco; se está no lodo, faz-se pardo: e se está em alguma pedra, como mais ordinariamente costuma estar, faz-se da cor da mesma pedra. E daqui que sucede? Sucede que outro peixe, inocente da traição, vai passando desacautelado, e o salteador, que está de emboscada dentro do seu próprio engano, lança-lhe os braços de repente, e fá-lo prisioneiro. Fizera mais Judas? Não fizera mais, porque não fez tanto. Judas abraçou a Cristo, mas outros o prenderam; o polvo é o que abraça e mais o que prende. Judas com os braços fez o sinal, e o polvo dos próprios braços faz as cordas. Judas é verdade que foi traidor, mas com lanternas diante; traçou a traição às escuras, mas executou-a muito às claras. O polvo, escurecendo-se a si, tira a vista aos outros, e a primeira traição e roubo que faz, é a luz, para que não distinga as cores. Vê, peixe aleivoso e vil, qual é a tua maldade, pois Judas em tua comparação já é menos traidor! Oh que excesso tão afrontoso e tão indigno de um elemento tão puro, tão claro e tão cristalino como o da água, espelho natural não só da terra, senão do mesmo céu! Lá disse o Profeta por encarecimento, que "nas nuvens do ar até a água é escura": Tenebrosa aqua in nubibus aeris. E disse nomeadamente nas nuvens do ar, para atribuir a escuridade ao outro elemento, e não à água; a qual em seu próprio elemento é sempre clara, diáfana e transparente, em que nada se pode ocultar, encobrir nem dissimular. E que neste mesmo elemento se crie, se conserve e se exercite com tanto dano do bem público um monstro tão dissimulado, tão fingido, tão astuto, tão enganoso e tão conhecidamente traidor! Vejo, peixes, que pelo conhecimento que tendes das terras em que batem os vossos mares, me estais respondendo e convindo, que também nelas há falsidades, enganos, fingimentos, embustes, ciladas e muito maiores e mais perniciosas traições. E sobre o mesmo sujeito que defendeis, também podereis aplicar aos semelhantes outra propriedade muito própria; mas pois vós a calais, eu também a calo. Com grande confusão, porém, vos confesso tudo, e muito mais do que dizeis, pois não o posso negar. Mas ponde os olhos em António, vosso pregador, e vereis nele o mais puro exemplar da candura, da sinceridade e da verdade, onde nunca houve dolo, fingimento ou engano. E sabei também que para haver tudo isto em cada um de nós, bastava antigamente ser português, não era necessário ser santo.

in Sermão de Santo António aos Peixes, Padre António Vieira

Nota: o polvo, para além do excerto que transcrevi (foi mais copy and paste), lembra-me também as excelentes sandes que faziam no Golfinho (Porto Santo). O resto é irrisório... Qual máfia, qual carapuça!

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

O Cabo das Tormentas *

Procuro pela próxima lullaby (TEM que ser My Private Lord) e o grooveshark apresenta-me no mínimo 83 páginas. É árduo, o trabalho, quando recorremos ao divino.

*doces, que é sempre um prazer vasculhar por entre a obra do Senhor**.
**Como vês Sancho***, eu até sou uma crente.
Hoje apeteceu-me assim a modos que meter-me contigo.

Hieronymus Bosch (1450 - 1516)

("A Freira" de Bosch)
Sempre tive um certo fascínio por este pintor renascentista. Com humor e perspicácia, revelou/ilustrou, através de alegorias, o espírito das instituições católicas na sua época. Hoje, lembrei-me de Bosch... e tu sabes porquê, EB.

Terceira Margem


Este projecto, idealizado pela APF, concilia o trabalho de seis escritores/as - a saber, Ana Luísa Amaral, Nuno Júdice, Isabel Mendes Ferreira, Fernando Pinto do Amaral, Helga Moreira e Porfírio Al Brandão - com o trabalho de seis artistas plásticos/as - Pedro Proença, Regina Chulem, Agostinho Santos, Teresa Gonçalves Lobo, Avelino Rocha e Lúcia David - sobre a temática da bissexualidade.

Na Região, a inauguração da exposição Terceira Margem acontece já amanhã, no Teatro Baltazar Dias, pelas 18 horas, com a presença de Teresa Gonçalves Lobo e Porfírio Al Brandão. A exposição estará patente no TBD até ao dia 29 de Fevereiro, altura em que transitará para outro ponto do País. 
Segue-se um jantar no Chega de Saudade, que tem por objectivo a angariação de fundos para a APF.
 
Terceira Margem
Onde a arte é inclusão para a bis.sexualidade.  

Post Scriptum

(ao post Terceira Margem)

Descansa, Sancho, que o teu dinheirinho está salvaguardado para financiar causas maiores, tais como a Marina do Lugar de Baixo ou um novo Estádio a encher com moscas.
Lamentável é que o meu dinheiro também sirva para isto.

(nem me importo que parte vá para a Associação Portuguesa de Famílias Numerosas: seria bom que investissem em formação sobre planeamento familiar).


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

"O Elogio da Loucura"*

(Narciso na Fonte de Caravaggio)
Ai, como eu gosto de ver gente deslumbrada, segura, formosa e descalça (da) a ir para a fonte. (*Título do ensaio: O Elogio da Loucura, Erasmo de Roterdão)

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

"Mau Tempo no Canal"*

Dirigentes políticos a perseguir jornalistas!? A arredar funcionários/profissionais da comunicação social só por que não agradam aqueles que governam? Ou será que a censura está outra vez na moda? (Clio anda adormecida e um pouco esquecida...) Mas quando é que o bom senso chega à política portuguesa?
(*plágio: Mau Tempo no Canal (1944), é um romance de Vitorino Nemésio)

O Outro Cabo*

O texto que agora posto foi escrito para o blog do Núcleo de Estudantes Sociais-Democratas (não, não faço parte). Partiu de um convite do Baby Boy, que tive todo o prazer em aceitar. 


A razão para o trazer só agora, prende-se com o facto de a minha Coimbra também ser a Tua, em tempos diferentes e espaços provavelmente diferentes. Não interessa, é a nossa Coimbra. E por postá-la aqui hoje, reduzo um bocadinho a distância que, por hora, há entre Nós.


Não tenho memória nítida do dia em que cheguei a Coimbra. Quando recuo, apenas consigo posicionar-me lá, sem data específica. Escrever sobre Coimbra é sempre um exercício de luto.
A minha Coimbra começa na universidade e desce ligeira até ao rio, pelas ruas de pedras redondas, gastas de tantos pés apressados para uma aula, pés cansados de regresso a casa, pés cambaleantes de uma noite por dormir, ou pés parados à conversa com outros pés.
A minha Coimbra é a Universidade e recordo a primeira aula, em que o professor de Epistemologia Geral nos recebeu com um excerto de As Cidades Invisíveis de Italo Calvino e a exortação para que levássemos a Universidade para além das paredes seculares daqueles edifícios. Pediu-nos exactamente o que o professor seguinte, um homem pequenino que pouca (ou má) memória deixou, tanto se esforçava para manter.
A minha Universidade prosseguiu com as aulas de Antropologia Filosófica, que me permitiram desenvolver mais consistentemente a minha consciência feminista, e com essa paixão avassaladora pelas aulas de Filosofia Contemporânea, difíceis, fascinantes, de que ainda hoje sou nostálgica e a que sempre volto (o título e a citação assim as evocam).
A minha Coimbra é a dos Encontros de Fotografia, onde descobri a paixão pelo olhar demorado que os outros depositam nas coisas e nas pessoas e nos lugares; portanto, a minha Coimbra é o Museu Machado de Castro onde estive com Pierre Verger ou o Pátio da Inquisição onde me perdi de amores por Joel-Peter Witkin, ou o edifício das Caldeiras onde ia ter com B. e onde estava a instalação de Nozolino.
É a Coimbra da Travessa de Montarroio, da casa com postigo e cogumelos a nascer atrás do sofá. É a Coimbra do Diligência Bar e das músicas PREC regadas a bom vinho e histórias do Sr. Vítor. É a do Académico, do Clube de Rugby, da States ou do Buraco Negro, lugares onde descobri David Bowie e Pixies, Cake e Toy Dolls, Prodigy e Rammstein (e todos os outros que injustamente ficam por enunciar).
É também a Coimbra onde organizamos Por Levadas e Arraiais na Casa da Madeira; trabalhamos que nem doidos/as, suamos as estopinhas e fizemos juras de que enquanto houvesse memória nunca mais nos meteríamos em nada do género (e a memória é sempre demasiado curta). É a Casa da Madeira da D. Natália, funcionária incansável que nos aligeirava os queixumes e a documentação oficial.
A minha Coimbra nunca foi a do traje académico, com a história pesada da polícia académica; também nunca foi a das trupes da tesoura e da colher de pau, que alegremente perpetuam tradições cuja origem ignoram. A minha Coimbra nunca foi a Coimbra dos “Gang’s de Capa e Batina” (título de uma reportagem que saiu na altura sobre a praxe na revista do DN, assinada pela minha grande amiga Isabel Ventura).
É sede de quase todos os afectos que maior importância tiveram/têm para mim.
A minha Coimbra – que desdenhosa e ingenuamente afirmava não ser minha - foi-me estranha até (quase) ao momento em que soube que tinha que regressar. Aí dei lugar à Coimbra que ainda hoje há em mim.

*Título de um livro de Jacques Derrida.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Lullaby extraordinária

Para a semana inteira

Bom dia.

"a difícil arte da melancolia"



e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia

Al Berto (Alberto Raposo Pidwell Tavares)
11 de Janeiro de 1948 - 13 de Junho de 1997


Boa Semana