sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Je suis une pipe

(Magritte)

"E hoje como te chamas?"
Cachimbo, responde automaticamente.
Ontem era maçã. Mas comeu-a rapidamente e hoje acordou estremunhada com o espaço que a maçã - agora descarnada, caroço tímido, patético até - deixou no seu nome.
Cachimbo. Hoje chama-se cachimbo. E se amanhã acordar fumada, trocará novamente de nome.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

"Womansitting"

Não se arranja nada no Género?
Brinco, mas qualquer dia vem o Executivo do Primeiro (detesto nomeá-lo, por óbvia heresia) apresentar isto como exemplo a seguir. Sempre era mais variado, deixávamos a Finlândia por uns tempos...

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

"Good night, and good luck"

Depois de suar as estopinhas, rezar às anjinhas e implorar à senhora da bilheteira, lá consegui os bilhetes* para a Orquídea Branca. Em terra acusada de desprezar tudo o que tenha que ver com contemplação (no caso, é favor apurar o ouvido), a verdade é que esta produção tem casa quase cheia nas várias apresentações que ainda estão por cumprir. Restam alguns poucos bilhetes desgarrados, abandonados à sua sorte. A quem não queira deixar passar a oportunidade, recomenda-se paciência e um olhar ao estilo S. Bernardo, a fim de comover os corações emperdenidos das salas quase cheias. "Good night and... good luck."
*Espero mesmo dar por bem empregada a quantia.

Mas qual é a dúvida?

O segredo está na elaboração das provas. Que aliás, faz todo o sentido, já que temos toda uma política estruturada em função de listas e estatísticas. Seria contraproducente facilitar ao longo do percurso e dificultar apenas no final. O Ministério sabe mesmo o que faz.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Para ti

"No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa como uma religião qualquer."
A. Campos

domingo, 26 de outubro de 2008

Perdoado

Into My Arms do My Private Lord a coroar o post!
Chama-me Senhora quando quiseres (desde que logo de seguida apazigúes a ferida com Mr. NC).

Quase

Aqui a Senhora (gritos de desespero a acompanhar a palavra imprudentemente grafada ) que tira Jorge C do sério, considera que o tango que decorre há uns meses entre o referido cavalheiro e F é profundamente estimulante para o dito senhor (ora toma, que a coisa pode ser devolvida).
É verdadeiramente inspirador seguir os arrufos, os amuos, os insultos carinhosamente endereçados um ao outro, em que se podem ler (ou imaginar) nas entrelinhas os suspiros, os cabelos arrancados, as faces vermelhas ou o revirar ocular perante a leitura mútua.
A última cruzada envolve uma temática exaustivamente tratada desde o alvor dos tempos. E Jorge, que anda inspirado no assunto (mas não graças a F ou a mim - e que a responsável se pronuncie) discorreu livremente sobre o assunto e deixou na caixa do jugular um dos seus comentários mais inspirados, onde nem sequer faltou a referência ao meu filme de eleição (nos tempos de adolescência): Gone With The Wind. Perante o comentário, fazem vénia todos os outros comentaristas que não se atrevem a esgalhar pálida continuação. E nem a provocação final anula o encantamento do texto.
É obra senhor. Quase lhe perdoo o Senhora.

Lullaby de Domingo



Danke a quem me deu a ouvir esta pérola: Mono. A faixa chama-se Gone.

sábado, 25 de outubro de 2008

Fracturante

Eis a palavra que está na base da não aprovação do casamento homossexual no parlamento português. Junto a outros argumentos que são, simplesmente, idiotas, fracturante deu azo às mais diversas perspectivas sobre o assunto.

Começando pelo parlamento, onde a bancada que apoia o governo não aprovou a dita lei por esta ser (adivinhem lá)... fracturante e, desde logo, pouco pertinente. O que eu me vou rir se, e quando, estes que lá andam estiverem na oposição e apresentarem um projecto sobre o assunto.

Na blogosfera é possível ler outros arrazoados tendo por base o mesmo conceito. Minoriza-se a questão, sem mais, porque é fracturante e ser fracturante é coisa de esquerda. Como tudo o que é proposto pela esquerda é idiota, estalinista ou sem sentido, logo... Um verdadeiro argumento sólido! Como é claro, isso de paneleirices é só coisa de pessoal de esquerda.

Por fim, basta-nos dar um salto até à Virgínia e constatar o quão idiota toda esta discussão será dentro de alguns anos.

«Permitir o casamento entre pessoas de raças diferentes significaria necessariamente a degradação do casamento convencional, uma instituição que merece admiração em vez de execração»

«Deus todo-poderoso criou as raças branca, negra, amarela, malaia e vermelha e colocou-as em continentes diferentes. E se não tivéssemos interferido com esta disposição nem sequer estaríamos agora a falar de casamento entre pessoas de raças diferentes. O facto de ter separado as raças demonstra bem que Deus não queria que as raças se misturassem».

Sentença proferida por um juiz do Estado norte-americano da Virgínia que em 1967 condenou Mildred e Richard Loving pelo «crime de casamento inter-racial»


Até lá, e como diria o outro da televisão, façam o favor de ser felizes.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Pausa esfumaçante/idiota/catártica

Pior que assistir (e por vezes presidir) a reuniões carregadinhas de burocracia, só mesmo ter de redigir as actas de tais colossos geradores de contagiosos bocejos. Mas isto é vida para uma sexta feita à tarde?

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Caminhar sobre as águas


Sob um sol tardio, conversamos sobre a nossa cidade. Do que foi - essencialmente das memórias de meninice - e do que é. Relembro que naquele exacto espaço, há muito tempo, frequentava com a minha Mãe uma oficina de automóveis, igual a tantas outras naquele espaço. Agora não. Limpou-se a zona, engalanou-se o espaço em que o sol é convidado a entrar e desafiar a cor amarelo ocre do Museu que orgulhosamente enfrenta o mar e que encerra a rua.
Elejo espaços de eleição (vide este outro) de quando em vez e, se calhar por neste ter testemunhado uma trilogia perfeita - um magnífico pôr-do-sol, uma Razão maliciosamente empacotada (ah, como gostava de enviar alguns pacotes a DM) e um Morpheu que me inspirou um fim de semana em Setembro - também passou a ser, de certo modo, um outro espaço que transcende a Ilha e a lança para fora do mundo. E estas visitas esporádicas têm a graça de me suspender e projectar no mar. Preciso crer nestes espaços, cada vez mais. Para que a Ilha não se torne irrespirável.

(fotografia de Lucia Alderighi Stringi roubada aqui)

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Pérolas a porcos

"É preciso que algo mude para que tudo fique na mesma"

O Leopardo, Giovanni Tommasi di Lampedusa



Pérola arduamente engolida, e ainda não totalmente deglutida, em reunião tida lugar há bem pouco tempo. O status quo, esse, é igual em todo o lado.


(Já agora, esta foi uma das boas leituras que fiz ultimamente)

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Condicional (a whispered story)

Ah, se eu sabia, erraria, ah, se eu sabia, erraria. E caminharia de mãos vazias, olhos vendados, apenas a ponta dos dedos a tocar o mundo. Ah, se eu sabia, se eu sabia, erraria e não fugiria ao assustador que é prece. Ah, se eu sabia, se eu sabia, erraria e não pararia a perguntar as horas para saber que vivia; seria apenas cega do tempo, tactearia o irreal com a palma das mãos, à flor da pele. Ah, se eu sabia acordaria no desacordo, desacordaria o acordado, rasgaria contrato e tocaria o susto; abandonaria ao medo o instante. Ah, eu não sabia e se eu sabia não erraria julgando errar. Ah, se eu sabia, arderia, ah, se eu sabia, arderia.

Presente (a whispered story)

"Ah, se eu sei, não nascia, ah, se eu sei, não nascia. A loucura é vizinha da mais cruel sensatez. Engulo a loucura porque ela me alucina calmamente. (...). Diga-me por favor que horas são para eu saber que estou vivendo nesta hora. A criatividade é desencadeada por um germe e eu não tenho hoje esse germe mas tenho incipiente a loucura que em si mesma é criação válida. Nada mais tenho a ver com a validez das coisas. Estou liberta ou perdida. Vou-lhes contar um segredo: a vida é mortal. Nós mantemos esse segredo em mutismo cada um diante de si mesmo porque convém, senão seria tornar cada instante mortal. "
Tempestade de Almas in Contos de Clarice Lispector

domingo, 19 de outubro de 2008

Lullaby de Domingo


Finalmente descanso, subsidiado por Velvet Underground.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Complexo? Não...complicado ou combinado...

A julgar pelos critérios de recrutamento de algumas empresas, em breve poderemos substituir o trabalho das universidades por um treino intensivo de páginas de 'quebra-cabeças'. Para quê queimar a pestana se, para qualquer empresazeca, se tem que mostrar que se consegue pôr o quadradinho no sítio certo? Que importa a linguística se o que interessa é saber que o correspondente de 'destinatário' é, segundo os critérios (estáticos) de correcção: 'beneficiário'? As teorias psicológicas de 5.ª categoria de avaliação de personalidade, atenção, concentração, cálculo mental, raciocínio são medidas nas folhas de quebra-cabeças de uma qualquer empresa de recrutamento.
Perceber uma teoria económica? Mostrar que se consegue elaborar uma frase? Qual quê? O importante é perceber o bonequinho e entrar directamente na cabeça de quem elaborou o testezinho. É assim que se passa de analfabeto funcional a apto para colaborar numa graaaannnnnnnde empresa.
E já agora... aceitam-se sugestões: para complexo (sem qualquer contexto adicional), escolheriam complicado ou combinado? Só uma estaria correcta (segundo os critérios de correcção dos referidos psicólogos). Há paciência?

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

A frase que "se pegou" :

A melhor forma de solucionar a crise é: NACIONALIZAR OS PREJUÍZOS!!

Post it aberto

Caríssimo Che Carvalho:
No ponto 3 do seu diário de hoje, acerto em cinco das seis causas denunciadas. Após a leitura e consequente reflexão sobre a razoabilidade dos meus posicionamentos, restam-me as seguintes dúvidas, a que certamente responderá. Exponho-as por pontos:
1 - Serei fracturante ou irremediavelmente fracturada? (dúvida prontamente denunciada na sua caixa de comentários)
2 - Com tanta pontaria, deverei arriscar e jogar em alguns dos jogos da Santa Casa da Misericórdia?
3 - Se recorrer ao autoflagelo, acha que consigo descontagiar-me?

E pega-se*

Há uns anos atrás, papagueávamos aos alunos que também aprendemos por ouvir dizer.
Hoje, ouvi dizer que o preconceito em relação a educadores de infância (no masculino) é plenamente justificado, já que nunca se sabe; e a afirmação inicial, misteriosa, é seguida por trejeitos que anunciam o que vem de seguida - do género, vocês sabem o que quero dizer, apenas estão a fingir que são parvos. Face à estupefacção dos restantes, a criatura prosseguiu a sua linha de raciocínio em relação à tese nebulosamente enunciada: na sua terra natal , explicou como se tivessemos todos quatro anos, havia um conjunto de homens assumidamente homossexuais que haviam sido contaminados pela pessoa que havia sido responsável pela sua educação nos primeiros anos.
Mistério resolvido! A justificação pela qual é perigoso atribuir a educação das idades mais tenras a homens é a de que, a escolher tal profissão, esses homens são claramente homossexuais (e obviamente agressores sexuais). E eu que andei tão enganadinha estes anos todos, a julgar que nestes casos a célebre frase da Simone não se aplicaria: eles não são homossexuais: dão em homossexuais, por obra e graça do exemplo dos mais velhos. Veja-se por exemplo (analogia que derrubou qualquer argumentação contrária) o caso do alcoolismo precoce em crianças cujos pais consomem álcool, ou as zonas em que a droga é vista de forma inconsequente pelo contexto sociocultural. Obviamente, a conclusão a tirar é a seguinte: tal como no segundo e terceiro casos as criancinhas tornam-se alcoólicos e viciados em estupefacientes, logo, no primeiro caso, obviamente, também dão em homossexuais. Aprendi em uma tarde o que durante anos não consegui vislumbrar.
Claro que fica por explicar por que raio é que no seio de uma família heterossexual surge uma criança/adolescente com uma identidade sexual diferente das restantes criaturas de Deus. Ou como pode ser traumático um jovem assumir a sua orientação sexual perante a comunidade. Está bom de ver que o caso só se aplica quando queremos provar que os homens - e implicitamente, os homossexuais - devem ser arredados da educação infantil. É que isto da homossexualidade é como a coca-cola do Pessoa: primeiro estranha-se, depois entranha-se*.

Arre, que fervo com isto. Como boa esquerdonguinha que sou.

namoros "lights"

Hoje levei as minhas crianças do oitavo ano à biblioteca da nossa escola. Disse-lhes que o exercício do dia era namorar livros. Apesar da Catarina informar-me desde logo que só gostava de namorar o Diogo e que não estava interessada, a maioria gostou da ideia. Conhecedora dos "calcanhares d´Aquiles" daqueles que são a minha verdadeira e única razão e motivação de me levantar cedo, libertei-os das (j)aulas e encaminhei-os para a biblioteca. Todos seguiram-me. Uns até bateram nas portas das salas, não com intenção de perturbar as aulas das outras turmas, mas sim, caríssimos senhores, para anunciar a felicidade que parecia transbordar dos seus coraçõezinhos de crianças. Foi, literalmente, uma alegria perturbadora. Enfim, pormenores só mesmo nas participações que alguns colegas mais lesados poderão (in)dignar-se a descrever.
À nossa espera já estava a bibliotecária, senhora muito simpática e amável, que nos fez uma visita guiada. Informou e mostrou-nos como é que estavam os livros organizados, catalogados e indicou quais os que podiam ser requisitados. Até aqui o percurso até correu bem. Mesmo muito bem.
Na fase seguinte, a prática: “Ok”, disse-lhes, “Agora estão por vossa conta. Ninguém sai daqui sem um livro. No final deste período lectivo, irão falar dele, "d´O Escolhido"! Conta para nota! Ouviram?! Não precisam de acertar à primeira! Nem sempre os amores à primeira vista resultam. Observem bem as capas, as contra-capas, os desenhos, as sínteses, os autores.... Namorem bem e muito ! Nada de pressas! Aqui existe uma grande variedade e há para todos os gostos. Se não gostarem, mesmo depois da requisição (contrato/casamento) e de o terem convosco , é porque foram "traídos" ou , então, porque se enganaram. Pronto, não resultou. Peçam o "divórcio" e venham cá trocar por outro. O importante é não desistirem, meninos! "Ide" então procurar o vosso companheiro ideal! "Ide" tomar decisões importantes para as vossas vidas!”
Enquanto circulava pela sala, ouvia comentários e exclamações do género: “Nem pensar levar este, tem muitas folhas. Esse?! Nunca! Já viste a grossura dele?! Estás doido?!”
Senhores, era a quantidade de folhas que preocupava aquelas crianças! Sentiam-se revoltados porque só existiam livros com imensas folhas! E nem sequer tinham desenhos (apesar de referir que também podiam incluir a banda desenhada nas suas escolhas)! Alguns alunos até tiveram a ousadia de insinuar, perante a minha pessoa, que iriam requisitar folhetos informativos! Folhetos!! E só não o fizeram porque… Enfim, há sorrisos que valem por mil palavras! E, neste caso, foi o meu sorriso bem amarelo a fugir para o enjoo!

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

(saudosos Ornatos)

Sinto a falta deles como se algo novo tivesse ficado por criar.



A cidade está deserta
E alguém escreveu o teu nome em toda a parte
Nas casas, nos carros,
Nas pontes, nas ruas...
Em todo o lado essa palavra repetida ao expoente da loucura
Ora amarga,ora doce
Para nos lembrar que o amor é uma doenca
Quando nele julgamos ver a nossa cura

Relação simbiótica (continuação)

"Pompanheira"

(de Magritte)

Estabeleci com aquela mulher adulta/hospedeira querida uma relação simbiótica. Mas, com o tempo, também fiquei adulta, ou seja, da mesma espécie e a simbiose terminou.
Eu queria estar sempre muito perto dela.
Ela dava um passo, eu dava dois ou três para nunca a perder de vista; ela debruçava-se para apanhar qualquer coisa que caía, eu punha-me logo a jeito para um abraço ou para um beijo e quando ela parava, eu levantava os braços, queria logo colo.
Um dia… pediu que me afastasse dela!! Ia lavar umas roupas e podia molhar-me. Pedido recusado. Impossível. Impensável. Insisti ficar muito perto.
Entretanto, foi persistente e eu idem: sacudia-me e eu voltava; virava-me má cara e eu olhava para o chão; dava-me palmadas nas mãos e eu continuava a meter as mãos na água; ia-me sentar e eu agarrava-a, choramingava e dizia repetidamente que queria ir embora.
Passado algum tempo, num tom de voz muito ríspido e, de certa forma, inaudito para mim, ordenou de vez que me afastasse. Muito magoada, afastei-me.
Fiquei desnorteada, sem rumo… o meu mundo ficou destruído. Tinha sido, pela primeira vez, expulsa. Eu só sabia viver muito perto dela. Nem consegui chorar e só solucei.
Ao ver-me tão triste, não aguentou e “regressou” para junto de mim. Explicou-me a razão de me querer afastada naquele momento e eu, ainda revoltada, disse-lhe: “­­Mas eu quero ficar junto de si, porque eu sou a sua Pompanheira!”
Moral da história: em criança tinha jeito para neologismos.

domingo, 12 de outubro de 2008

Já agora, que estais com o ouvido à mão...

Ide ouvir o que a voz da lullaby faz actualmente (como bem sabeis, apaixono-me por vozes).

Lullaby de Domingo




Infelizmente estes senhores (Migala) já não fazem coisas destas juntos.

sábado, 11 de outubro de 2008

Da (falta de) espinha

Outra coisa não seria de esperar, de um partido que cada vez mais se descaracteriza e assume apenas a face que entende favorecer a continuidade na maioria que conquistou com publicidade enganosa. A mim só me ocorre a palavra vergonha, desconhecida do léxico desta gente.
De qualquer modo, já não passava pela minha agenda apoiar um aparelho que desde o início desta governação só tem defraudado. Nada de novo (excepção feita aos que ousaram dizer que não iam por ali, já que aquele nunca havia sido o seu caminho).

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Ain´t got no, I got life

Ain't got no home, ain't got no shoes
Ain't got no money, ain't got no class
Ain't got no skirts, ain't got no sweaters
Ain't got no Perfume, ain't got no beard
Ain't got no mind

Ain't got no mother, ain't got no culture
Ain't got no friends, ain't got no schooling
Ain't got no love, ain't got no name
Ain't got no ticket, ain't got no token
Ain't got no God

What have I got?
Why am I alive anyway?
Yeah, what have I got?
Nobody can take away

I got my hair, I got my head
I got my brains, I got my ears
I got my eyes, I got my nose
I got my mouth, I got my smile

I got my tongue, I got my chin
I got my neck, I got my boobs
I got my heart, I got my soul
I got my back, I got my sex

I got my arms, I got my hands
I got my fingers, Got my legs
I got my feet, I got my toes
I got my liver, Got my blood

I've got life, I've got my freedom
I've got the life

I got a headache, and toothache,
And bad times too like you,
I got my hair, I got my head
I got my brains, I got my ears
I got my eyes, I got my nose
I got my mouth, I got my smile

I got my tongue, I got my chin
I got my neck, I got my boobies
I got my heart, I got my soul
I got my back, I got my sex

I got my arms, I got my hands
I got my fingers, Got my legs
I got my feet, I got my toes
I got my liver, Got my blood

I've got life, I've got my freedom
I've got life, I'm gonna keep it
I've got life, I'm gonna keep it

Nina Simone

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Obsessão

Temo que os meus posts sejam tomados por Clarice. Mais do que já são. Mas só me apetece ler Clarice, trazer Clarice, respirar Clarice. Livro(s) de cabeceira, livro(s) das respostas, evangelho(s) meu.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Eu - Woab - também me associo

"A UMAR - União de Mulheres Alternativa e Resposta - associa-se e apoia a luta das organizações portuguesas, no sentido de verem reconhecido o direito ao casamento civil para todas as cidadãs e todos os cidadãos independentemente da sua orientação sexual.
(...)Embora a Constituição consagre no seu artigo 13º a eliminação de todas as formas de discriminação, o Código Civil mantém essa discriminação no que se refere ao casamento de pessoas do mesmo sexo. Para a UMAR a lei tem que ser conforme à realidade e não pode atropelar a Constituição da República. A negação do acesso ao casamento civil de lésbicas e gays portugueses é uma restrição grave à liberdade e uma forma de discriminação inaceitável.
A UMAR reclama que no próximo dia 10 de Outubro a Assembleia da República assuma as suas responsabilidades, aprovando os projectos de lei que prevêem a alteração do Código Civil no que se refere ao acesso ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. As deputadas e deputados portugueses terão oportunidade, através do seu voto, de mostrar que têm dos direitos fundamentais, da cidadania e da democracia uma visão que não discrimina ninguém, cidadãos e cidadãs do exercício e do direito à felicidade."

Dez anos depois...

... faço o mesmo que ela. Ouço determinadas faixas, repetidamente, durante horas.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

A essência da palavra é a hospitalidade (E. Levinas)

Eu não tenho senão uma língua - constatação - ora ela não é a minha - lamento e simultaneamente abertura. A marca descompassada, atrasada, sempre em falta, do Outro em mim, de mim no Outro. Para o Outro.
É esta abertura, tão magnífica quanto terrífica, que relembra-me a separação originária que (quase) me impede o golpe bélico e economicista. Repito em oração - "ela não é a minha" - e humanizo-me na apropriação da palavra, dobro-a - de cada vez que me exilo na palavra de outrém. E portanto, não sou eu que possuo a língua - é ela que me desapropria através da demora(da) singular que d/nela faço.

domingo, 5 de outubro de 2008

Futilidades - não tão desimportantes quanto isso

"Dear Jeremy: in the last days i've been learning how to not trust people. And i'm glad i've failed."
in My Blueberry Nights


Uma das pessoas em quem confio em absoluto é no meu cabeleireiro. A tarefa não é fácil: a minha melena, apesar de modesta e de não ser alvo de loas, não é miúda para deixar domar facilmente o carácter rebelde. Ele enfrenta-a estoicamente e até hoje tem levado sempre a melhor.

Permitam-me que sugira...

...a leitura deste texto. Para quem frequenta o espaço escola (e tudo o que isso implica, desde as reuniões, planificações, planos de intervenção de turma, avaliações, salas de trabalho, de professores, de...), é inevitável a identificação.
Como sempre, muito bem escrito.

Lullaby de Domingo


"I've been learning to drive
My whole life
My whole life
I've been learning"

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Interrupção ...



...do fim-de-post, para deixar por cá o embrulho a Mr. Lekker.
Enjoy it, enquanto chove.

(Estive quase a escolher Flying Lessons, dadas as apetências.)

Finalmente - The Greatest

Hoje entrego-me a Wong Kar Wai:
My Blueberry Nights a um preço aceitável (note-se que não será o ideal, mas ainda assim) na Fnac. Apanhado à saída, num gesto de descoberta surpresa, depois de deambular pelas ruelas do sítio. Com um brilhozinho nos olhos, adiei para hoje a sessão, já que o trabalho não é complacente com desejos prementes. Fim-de-post.

Adenda ao post anterior


Mas por isso mesmo, a palavra também SALVA.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Cogitações avulsas e inconsequentes

Evocando o cuidado aconselhado por Funes, compreendo, de certa forma, a interdição que pretende quanto à leitura de Derrida pelas crianças portadoras de magalhãezinhos...

"Eis toda a questão, cada palavra conta. Sustém, toca, puxa, como uma trela, afecta e algumas vezes rasga a pele, magoa, penetra na superfície epidérmica, o que um véu nunca faz, que basta para velar a vista."
Hélène Cixous e Jacques Derrida, Véus... à Vela

A palavra como desvelamento pode ser brutal. A afecção pela palavra é radical; a relação discursiva que dita a impossibilidade absoluta: relação ética, lembra a separação originária em relação ao Outro, que é anterior, sempre primeiro.
Não há contemplações, com a palavra. Precede-nos e convida-nos à dádiva ao outro, mas é ferida que marca a separação originária. Não há a ilusão da apreensão - a cegueira do olho. A palavra é sempre separação e cada palavra conta(-nos). Toca, puxa como uma trela, mas nunca coincide completamente: é o estrangeiro em nós - o limite da identidade. A minha palavra não é minha... (adulteração de uma afirmação derridaniana: "Sim,eu não tenho senão uma língua, ora ela não é minha" (in O Monolinguísmo do Outro).

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Há quem, como eu, prefira estar quieto

"Entusiasmo-me com a beleza das paisagens, que valem como as pessoas, e tive já uma grande curiosidade pelos tipos rácicos, pelos costumes, e pela diferença de mentalidade do povo de região para região. (...) Porém não sou etnólogo, nem folclorista, nem estudioso de nenhum desses aspectos e logo me desinteresso. Seja pelo que for, não gosto de viajar. Já pensei em pedir demissão. Mas é difícil arranjar outro emprego equivalente a este nos vencimentos. (...)
Acordar todas essas trinta manhãs no meu quarto! Ver durante trinta dias seguidos a mesma rua! Ir ao mesmo café, encontrar as mesmas pessoas!... Se soubessem como é bom! Como dá uma calma interior e como as ideias adquirem continuidade e nitidez! Para pensar é preciso estar quieto. Talvez depois também cansasse, mas a Natureza exige certa monotonia. As árvores não podem mexer-se. E os animais só por necessidade física, de alimento ou de clima, devem sair da sua região. Acerca disso tenho ideias claras e uma experiência definitiva. (...)"

in O Barão, Branquinho da Fonseca

Da Excelência

Em dia da Música, deixo por cá aquele que tem sido companheiro de anos. Nada como o Prelúdio de Tristão e Isolda, perfeito para este início de Outubro.