quinta-feira, 16 de novembro de 2006

cansaço...

O que há em mim é sobretudo cansaço O que há em mim é sobretudo cansaço Não disto nem daquilo, Nem sequer de tudo ou de nada: Cansaço assim mesmo, ele mesmo, Cansaço. A subtileza das sensações inúteis, As paixões violentas por coisa nenhuma, Os amores intensos por o suposto alguém. Essas coisas todas - Essas e o que faz falta nelas eternamente -; Tudo isso faz um cansaço, Este cansaço, Cansaço. Há sem dúvida quem ame o infinito, Há sem dúvida quem deseje o impossível, Há sem dúvida quem não queira nada - Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles: Porque eu amo infinitamente o finito, Porque eu desejo impossivelmente o possível, Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser, Ou até se não puder ser... E o resultado? Para eles a vida vivida ou sonhada, Para eles o sonho sonhado ou vivido, Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto... Para mim só um grande, um profundo, E, ah com que felicidade infecundo, cansaço, Um supremíssimo cansaço.Íssimo, íssimo. íssimo, Cansaço...

Alberto Caeiro

4 comentários:

Woman Once a Bird disse...

E chega de mansinho, trazido por ti, traduzindo tudo aquilo que sinto mas não digo.

rps disse...

Melhores dias virão...

Anónimo disse...

este poema é mais que maravilhoso. o cansaço é que é um aborrecimento.

sleep well disse...

Mesmo "cansado" Alberto Caeiro diz de forma única!